Criatividade, inovação e superação só são possíveis pela contaminação


Em uma palestra inspiradora o apresentador Zeca Camargo explica que a curiosidade e criatividade são ingredientes fundamentais para inovar, mas só encontram caminho para agir quando você entende que abraçar o diferente e se abrir para o desconhecido são as melhores coisas que podem te acontecer...


Não, você não leu o título deste artigo errado. Mas para entender vamos fazer aqui uma retrospectiva e começar pelo final para que o início faça sentido.


Hoje é 18 de Abril de 2019 e agora são 4:10 de uma quinta-feira que começa a raiar, anunciando a véspera de feriado de Páscoa. Mas para o meu relógio biológico ainda é terça-feira. As quatro horas picadas dormidas desde a terça não foram o suficiente para o organismo entender que já é quinta. Ontem perto das 18h ele começou a cobrar o preço do abuso (um tanto ousado, mas excepcionalmente necessário). E a palestra em que eu tinha confirmado presença há 20 dias e aconteceria dentro de uma hora e meia com Zeca Camargo no holofote começou a parecer não tão atrativa assim...


Foi preciso convencer o meu cérebro de que aquela era uma excelente válvula de escape, uma oportunidade de arejar e respirar um pouco antes de continuar o ritmo insano que ainda não estava tão próximo de terminar durante as próximas 20 horas. E ainda bem que o argumento funcionou!


Na volta para casa após pouco mais de uma hora e quinze ouvindo o apresentador compartilhar algumas de suas histórias e experiências, uma sensação de recarga incrível corria pelas minhas veias. O corpo ainda estava cansado, mas as baterias foram reanimadas para seguir firmes dali até a pausa final e ainda guardar um pouco de carga para retomar no futuro alguns dos insights valiosos que a noite proporcionou.


Para mim Zeca Camargo sempre foi referência daquela que talvez seja sua maior estrela no currículo quando a tv aberta ainda reinava: apresentador do "Fantástico". Mas foi por causa do projeto “A Fantástica Volta ao Mundo” que eu me tornei sua fã. Acompanhei o quadro no programa como muitas pessoas, só que foi no livro que ele ganhou minha atenção. A obra “Registros e Bastidores da Viagem” foi a primeira aventura de Zeca como escritor e trazia, além de mais detalhes das viagens, curiosidades e fatos sobre os bastidores que enriqueciam o contexto para os admiradores do quadro (e eu falo um pouco mais sobre o livro AQUI). E através do seu amor pela escrita Zeca me levou (certamente ao lado de muitos outros leitores) em uma incrível viagem em cada página, frase e palavra. E assim, enquanto eu me dividia entre trabalho, faculdade e livros, me iniciou também entre os apaixonados por viagens, desejosos de conhecer mais sobre o que existe mundo afora, além das nossas barreiras geográficas cotidianas.


Quase 15 anos se passaram desde então e eis que um dia vejo um anúncio dizendo que esse mesmo Zeca iria palestrar no Parque Tecnológico de Sorocaba, durante o lançamento da 2º edição do Coworking Universidades, um projeto muito legal que a instituição elaborou para dar a 100 estudantes de TI selecionados entre as faculdades da cidade a oportunidade de participar de um grupo seleto que terá como desafio construir alguns aplicativos idealizados para trazer benefícios aos munícipes. Mas a parte mais interessante é a bagagem que estes estudantes podem levar para casa após quatro meses inteiros mergulhados em uma estrutura completa de desenvolvimento que envolve mentores, coaching motivacional, técnica, e até mesmo hipismo e liderança com patentes da Marinha. E foi para trazer inspiração a estes jovens com a ideia de que todos podemos construir grandes iniciativas a partir de pequenas ideias que a diretoria do parque convocou alguém com bagagem o suficiente quando o assunto é desafio e inovação: Zeca Camargo.


Aliás, aqui vale um parêntese muito justo para parabenizar o excelente trabalho que o Parque Tecnológico de Sorocaba vem construindo ao trazer grandes referências do mercado nacional para palestras frequentes no lançamento de projetos da instituição, todas gratuitas e abertas ao público. Nosso papel (e oportunidade!) é prestigiar essas ocasiões como um momento de “recaptação do mundo”, em que podemos sair um pouquinho daquela automação em que passamos a semana enterrados para ter novos olhares sobre o mundo e os pensamentos ao nosso redor. E você vai entender até o fim do artigo como isso faz todo sentido!


Bom, oportunidade na mão, lá fui eu ver o que o Zeca de 15 anos depois do que eu acompanhei de tão perto tinha a dizer sobre o mundo...  


E foi justamente em forma de retrospectiva que ele fez sua apresentação, começando da sua mais recente aventura – ser o autor escolhido para conduzir a biografia de Elza Soares – até os primórdios de sua carreira, quando trabalhou na antiga MTV e na redação da Folha.


Aos 56 anos, o tempo trouxe as mudanças esperadas: cabelos grisalhos, alguns quilinhos a mais e o desejo por atender as novas perspectivas de vida que a idade agrega. Para ele, a principal mudança foi a decisão de deixar o "Fantástico" quando fez 50 anos e buscar oportunidades mais amenas (pelo menos dentro do possível). Muita gente se pergunta o que alguém com o currículo dele faz em um programa como o "É de Casa". E eu particularmente não posso opinar porque não assisto. Isso sem contar as pessoas que nem sabem o que ele anda fazendo da vida, uma vez que as novas gerações nem mesmo acompanham a tv aberta. Mas o que essas mesmas pessoas não entendem é a carga intensa de trabalho que difere um programa como o "Fantástico" de um "É de Casa". E conforme envelhecemos, todos sabemos que o nosso desejo de transformar o ritmo de trabalho para aproveitar melhor outras coisas da vida muda completamente. É natural que ele também tenha feito suas escolhas neste sentido.


A biografia de Elza é um exemplo. Seria possível fazer em um ano o mesmo projeto se ele estivesse ainda à frente do Fantástico? É certo que não...


Mas apesar de trazer em sua bagagem diversas coleções de aventura, para Zeca Camargo existe uma máxima comum que agrega um valor fundamental à todas elas: são os desafios e a curiosidade que te movem, mas você precisa estar aberto para o novo e abraçar as diferenças sempre. E para ilustrar um pouco mais sobre isso, vamos listar então alguns dos principais insights da noite.



Experimente o mundo


Apesar de sua atuação, curiosamente Zeca Camargo não é formado em jornalismo. Contrariando a tradição familiar da medicina, ele tem diploma de administração e propaganda, mas nenhuma das formações era o seu desejo no auge dos 20 anos. Então ele entregou o diploma aos pais e caiu no mundo, com apoio dos mesmos.


E foi aprender na prática o que realmente gostava de fazer, sem nunca se esquecer que boa parte de sua colheita veio da base que seus pais proporcionaram: desde os estudos de inglês que abriram tantas portas em uma época em que a fluência poderia fazer toda diferença, até aceitar as escolhas de um filho que fugia aos desejos da família.


Zeca caiu na estrada e foi conhecer o mundo. Mais do que isso, foi entender na prática como a vida, as pessoas e culturas funcionavam. E a despeito do peso que um jovem enfrente em ter que decidir a profissão que vai determinar sua vida aos 17 anos, Zeca é prático: "alguns acertam e isso é ótimo. Mas eu não me sentia assim e fui buscar minhas paixões". E foi sua paixão pela escrita que o levou para a Folha mesmo sem ser um jornalista e o mantém lá até hoje como contribuidor de algumas colunas.



Agradeça todos os dias se você tiver um chefe que te diz não


Toda vez que você ouve um não, um sensor de estímulo é ativado dentro de você. Mesmo que você volte para casa puto da vida, frustrado e enraivecido. Mas por dentro uma série de mecanismos já terá sido ativado para tentar contrariar a corrente e provar sua teoria sobre uma ideia ou mesmo mudar a trajetória a respeito dela.


O apresentador usa como exemplo a própria Elza Soares, que acompanhou tão de perto para a construção da biografia. Da favela para o mundo, a cantora que hoje é um dos grandes nomes da música brasileira era uma mulher que em nenhum momento teve sua vida formatada para dar certo. E o que mais ouviu em sua trajetória foi não's. Mas existia um desejo maior dentro dela que a fazia perseguir seus sonhos e realizar cada uma de suas desejadas conquistas, não importa com quantos não's fosse necessário lidar pelo caminho. Hoje, no auge de seus 88 anos, Elza ainda tem shows agendados até 2022, e reflete com a alegria saudável de quem ainda está ativa: "São 88 anos e ainda tô incomodando...".

"Agradeça se você tem um chefe que te diz não, porque é isso que te estimula a ir além."

Mais do que um chefe, o mundo vai te dizer não MUITAS vezes. Quiçá todos os dias! Talvez seja por não ouvirem tantos nãos na juventude quanto as gerações anteriores que a geração Z está tão despreparada nos dias de hoje para lidar com as frustrações, elevando tantos e tantos casos de suicídio e bullying pelo mundo.



Nem sempre as limitações são um problema. Elas podem ser sua fonte de inspiração


Todo projeto tem limites. Não importa de que tipo seja. E Zeca Camargo sabe bem disso, afinal o jornalismo trabalha com um limite básico: é pão duro.


No entanto, enquanto muitas pessoas olham para os limites como barreiras intransponíveis, a incrível capacidade de contorná-los pode nos tornar muito mais adaptáveis e preparados para fazer mais com menos. Por que ao invés de olhar para os limites como um bloqueio não pode ser uma atitude natural olhar para eles como uma oportunidade de inovar?


O apresentador relembra seus tempos de MTV como um workshop diário, em que a liberdade de trabalho era uma oportunidade de experimentar todo tipo de iniciativa com o público. Mas tudo era feito internamente com os recursos disponíveis, e a equipe testava a cada iniciativa o que funciona ou não. E no dia a dia temos uma infinidade de oportunidades de aplicar laboratórios que nos serão referências para grandes ações, mas será que aproveitamos isso dentro de todas as possibilidades? Eu acho que não...


Mesmo durante sua trajetória no Fantástico, cada sugestão ou ideia da equipe exigia jogo de cintura para transformar um projeto em realidade mesmo diante dos limites. E foi exatamente esse o estopim para que "A Fantástica Volta ao Mundo" se transformasse em um grande sucesso. Uma passagem relativamente econômica quando comparada a outros destinos únicos, a flexibilidade em vivenciar uma aventura de mochileiro e o não de um chefe para que a ideia ganhasse contornos mais desafiadores foram os ingredientes responsáveis por tirar o projeto do papel e abraçar milhares de expectadores, mesmo em uma época onde não existia a possibilidade de transmissão de vídeos com a facilidade e os recursos tecnológicos de hoje! (Era preciso aproximadamente uma hora em uma lan house para transmitir um minuto de gravação como forma de driblar os altos custos da transmissão via satélite... Mas leia o livro que vale muito a pena para conhecer esse e outros detalhes!)



A curiosidade deve te mover


Inovação e criatividade não existem sem um elemento básico: curiosidade. É ela quem nos move e estimula a buscar e conhecer o novo para abrir as portas da oportunidade.


Zeca cita um pensamento do filósofo Kwame Anthony Appiah, que afirma ser impossível não existir assunto entre duas pessoas desconhecidas. A troca é um elemento natural ativado com a maior simplicidade do mundo pelo motor da curiosidade.

"É na troca que você conhece o novo e abre a porta para oportunidades. Deixe a curiosidade te estimular!"

Você já experimentou conversar com um estranho na fila de qualquer lugar, por exemplo?


Já falei algumas vezes sobre como pode ser enriquecedor se abrir para conhecer o novo, sobretudo quando você sai da sua zona de conforto. E não estamos falando aqui apenas do contato diário com as relações já existentes (que também tem grande valor!), mas do novo por completo: conhecer pessoas diferentes e com pensamentos diferentes.


Todos tem algo valioso a acrescentar, uma história pra contar e um pedacinho que você vai poder guardar. Esse é o grande presente em sermos humanos... E não é preciso ir longe pra embarcar em experiências assim: na fila da padaria também estão escondidas histórias e vivências incríveis, ao seu alcance todos os dias.



Abraçar a diferença é como abraçar um baú de tesouros


Ainda seguindo a continuidade do insight anterior, com a curiosidade vem uma linda abertura ao novo e ao diferente. Porque sim, é na diferença que construímos as coisas mais valiosas, em qualquer esfera da vida!


Curiosamente esse pensamento foi pauta até no escritório essa semana. Falávamos sobre como ter pensamentos diferentes em uma mesma equipe é tão importante para construir visões mais amplas e equilibradas. Não é a toa que parte dos critérios de seleção do Google privilegiam até a diversidade política, por exemplo. Ter pessoas com opiniões diferentes, que discordam e dialogam a respeito é riquíssimo para a cultura e o desenvolvimento de qualquer empresa. Se todos pensarmos da mesma maneira, como um produto poderia sobreviver ao tempo e à sociedade? Discordar é permitido e necessário!


Toda diferença é valiosa e poderosa. Só é preciso lembrar sempre que respeito e flexibilidade devem andar lado a lado com a liberdade de expressão e opinião. Assim todo mundo contribui um pouco e também cresce um pouco mais. Não foi por meio da imposição que a sociedade evoluiu da pré-história até os dias de hoje (e vou falar mais sobre isso no futuro em um artigo exclusivo sobre a obra Sapiens, de Yuval Noah Harari, fique de olho!).


Eu tenho a enorme alegria e um orgulho imenso em ter tido pais que sempre me incentivaram a descobrir o novo e abraçar a diferença. Minha mãe nunca teve problemas em começar uma conversa na sala de espera do consultório médico, na padaria ou com o estranho que passava pela rua. E há quem a julgue por isso. Mas eu não poderia ter maior satisfação em ter crescido em um lar assim, que abriu minha mente para viver experiências tão ricas ao proporcionar a troca e o crescimento por meio da simplicidade de uma palavra. E isso foi tão forte que hoje ainda tenho uma dificuldade absurda em compreender como ainda podem existir alguns parâmetros de discriminação (de todo tipo) tão surreais ou mesmo aceitar que ainda seja necessário termos cotas, porque isso é completamente não natural para mim.

“Você tem que ser fascinado pelo diferente. É só ele que vai te acrescentar. Mas para abraçar a diferença é preciso se abrir para o desconhecido.”

"Em defesa da contaminação" foi o título de uma matéria que catapultou Zeca Camargo para uma entrevista tão desejada com o Kwame Anthony Appiah, que se transformou em mais um de seus belos trabalhos durante a trajetória no fantástico: a série Novos Olhares.


Com episódios que convidavam o público a olhar para o mundo de um jeito diferente do habitual - e aí está um exercício que deveríamos praticar mais e sempre!!! (Já tentou ir para o trabalho por uma calçada diferente do habitual, por exemplo?) - a série mostra o quanto a abertura para o novo e o respeito ao diferente podem ser válvulas para o crescimento de cada um de nós. E vale a pena conferir este episódio que sintetiza a essência da proposta:





Olhar pra trás e ver que você não é o mesmo é uma vantagem e você deve se orgulhar disso


Por fim, se você se abre e permite vivenciar o novo e abraçar a diferença, é absolutamente impossível que você seja hoje a mesma pessoa que era ontem. E isso não poderia ser melhor! Essa foi outra mensagem importante do apresentador.

"Se você é hoje a mesma pessoa de 20 anos atrás, então você não viveu."

Desafio, criatividade e inovação só são possíveis quando você se permite contaminar pela diferença, pela influência externa e pelo novo. E a cada nova informação você se transforma e se torna alguém diferente. Sabe o ditado de que você nunca irá se banhar no mesmo rio duas vezes? É assim também com o homem. E é por isso que muitas vezes até mesmo as relações se transformam, e o que não funcionava agora funcione ou vice e versa.


Somos seres mutáveis e essa é parte de nossa essência. Se você escolhe viver em uma bolha, prepare-se para terminar a vida percebendo que você não experimentou a maior e melhor experiência de ser humano: viver.


E foi exatamente assim que agora, 4:58, me tornei uma pessoa diferente da eu que eu era ontem às 19h. É um exercício diário de filtro, em que temos o nosso próprio processo de seleção natural como uma oportunidade de criar um dia melhor a cada amanhecer.


Eu ainda tenho algumas horas pela frente até merecer o desejado descanso. Mas agora nem as pálpebras pesadas podem segurar a ativação mental por aqui. Assim como não puderam impedir esse textão de ser cuspido por uma mente ainda instigada e atenta às lições ouvidas, rendendo mais uma paixão em comum com o apresentador (a escrita).


Então segue o baile que a música não pode parar. Nunca! Porque é nos desafios que encontramos as nossas maiores oportunidades para inovar, pensar diferente e crescer.

Feliz Páscoa e que o coelhinho te deixe muitos bombons de criatividade e inovação ;)

“Eu acredito em texto” (Zeca Camargo) Obrigada, Zeca. Eu também =) s2

© Letícia Spinardi

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