Economia Criativa com Eduardo Kobra: da pichação na periferia à arte global do muralismo


Em palestra exclusiva o artista brasileiro que já pintou obras em muros de mais de 30 países explica como um ato de rebeldia abriu as portas para o mundo das artes e transformou sonhos em realidade.


Não importa sua nacionalidade ou em qual lugar do mundo você vive: certamente em algum momento você já foi impactado pelas obras de "Kobra". A assinatura, porém, não é mais desconhecida como era em 1987 na periferia de São Paulo. Aquele jovem que gostava de desenhar e encontrou na pichação uma forma de expressão cresceu, enfrentou inúmeros desafios, ultrapassou as barreiras do impossível e ganhou o mundo. Hoje Eduardo Kobra é um dos nomes mais reconhecidos no cenário artístico mundial, tendo criado uma marca pessoal única que tornam suas obras facilmente reconhecidas em qualquer parte do globo.


Apesar de já ter visto antes fotos, matérias e publicações a respeito do artista, meu primeiro contato de impacto com uma de suas obras "ao vivo" foi em 2015, em Nova Iorque. A obra era "O Beijo", uma releitura executada em 2012 a partir da famosa fotografia de Alfred Eisentaedt, de 1945, que retrata o beijo entre uma enfermeira e um marinheiro em comemoração ao fim da Segunda Guerra Mundial. E não havia outra palavra que não "impacto" para descrever as cores vivas e gritantes que iluminavam o High Line no início da gelada primavera americana.



Me lembro de ter pensado por que só fui conhecer um artista brasileiro justamente quando estava fora do meu país. E pela primeira vez tive curiosidade de saber mais sobre o tal Kobra. Em 2016 pude, então, ver uma obra ao vivo do artista em sua terra natal: o painel do Einstein, imponente e icônico, em plena Oscar Freire (antes de, infelizmente, ser retirado de lá).



Pouco tempo depois esse mesmo artista seria responsável pela criação de um dos mais belos painéis artísticos a ilustrar o complexo fabril de uma empresa brasileira: a Cacau Show. 5.742,11 metros quadrados de pura arte viva, à qual é impossível passar indiferente se você transita pela Rodovia Castelo Branco, quase um cartão postal de uma das mais significativas misturas brasileiras: o cacau interpretado por um artista brasileiro com as cores fortes tão características de nosso país. O resultado ganhou as páginas do Livro dos Recordes como maior painel grafitado do mundo.



E finalmente em 2017 foi quando compreendi a grandeza de seu trabalho muito além do impacto visual. De viagem marcada para Amsterdã, minhas pesquisas para o roteiro apontaram mais um mural de Kobra instalado na cidade, e eu imediatamente tratei de garantir que estivesse em minha rota. E depois de visitar a casa de Anne Frank, ver sua imagem representada na obra do muralista revelou um simbolismo muito maior do que apenas arte. Sua força de expressão está em transmitir mensagens profundas por meio do impacto visual e essa é sua maior contribuição artística para o mundo.



Foi justamente esse conceito que agregou à Kobra um valor inestimável como artista reconhecido mundialmente e um exemplo clássico sobre Economia Criativa. Mas nem tudo foi tão simples assim. E foi para ilustrar um pouco mais dessa jornada repleta de inspiração que o artista esteve nesta quinta-feira, 02 de Maio, no Parque Tecnológico de Sorocaba (PTS) para uma palestra com foco no tema "Economia Criativa".


E o dom da arte visual o faz um homem de poucas palavras, simples e objetivo, mas não menos impactante por isso. Foi assim que mesmo com uma palestra com pouco mais de meia hora logo após um feriado de quebrar a semana, Kobra LOTOU o auditório do parque como em poucas palestras anteriores.


Como mais uma iniciativa do PTS, a ação fez parte do programa de incentivo aos empreendedores e estudantes locais para o desenvolvimento de negócios focados no conceito de economia criativa, que acima de tudo estimula a geração de renda, cria empregos e produz receitas de exportação enquanto promove a diversidade cultural e o desenvolvimento humano por meio do capital intelectual que gera valor econômico.


O resultado você confere nos tópicos a seguir com as principais lições e mensagens deixadas por Kobra neste encontro cheio de inspiração e arte ;)



Você é quem cria as barreiras até a realização de seus sonhos


Filho da periferia, Kobra esteve sujeito às mesmas escolhas que tantos jovens brasileiros: o caminho fácil, as drogas e o conformismo que mantém tantos brasileiros ilhados na zona de conforto. Sua atração pela pichação e por desenhos em paredes e cadernos se tornaram símbolo de rebeldia e ganharam a desaprovação da escola e até mesmo de seus pais.


Mas foi quando participou de um grupo de hip hop - o Jabaquara Breakers - que Kobra começou a encontrar o caminho para sua vocação. E assim a rebeldia virou a porta de entrada no mundo das artes... Sem recursos ou dinheiro, transformou tinta cal e corante no material necessário para compor o seu primeiro painel autoral.


Pouco tempo depois, foi convidado para participar de uma concorrência no saudoso Playcenter. Precisava apresentar apenas duas artes para ser avaliado, mas seu desejo de conseguir a oportunidade o levou a preparar vinte. E foi assim que ele transformou seu desejo de vida em trabalho pela primeira vez, sendo responsável pela pintura de diversos brinquedos e equipamentos. E assim juntou grana para continuar grafitando nas ruas.

Eu sou mais um vindo da periferia, eu passei por tudo isso... Mas eu acredito no que eu faço.

Mesmo sem qualquer tipo de apoio, dinheiro, estudo ou vantagem, Kobra não se permitiu ceder às limitações impostas pela vida. Trabalhou arduamente dia após dia para conquistar seus objetivos e transformar o sonho de menino de pintar um mural em Nova Iorque em realidade. E ele atribui ter chegado lá à muita dedicação, organização, vontade e persistência. O impossível não existe, somos nós quem criamos as barreiras que nos impedem de chegar até nossos sonhos.


Você imaginaria que um artista que já pintou obras em mais de 30 países ainda não tenha aprendido a falar inglês e mesmo assim seja um sucesso mundial? Pois então... Será que não é você que está criando suas próprias barreiras para chegar onde deseja?



Busque referências e estude


O sonho de menino de um dia pintar um painel em Nova Iorque começou quando ainda era jovem e se inspirava em grandes nomes da história do grafite norte-americano, entre eles Jean-Michel Basquiat e Keith Haring. Mesmo sem grana ou apoio, Kobra era auto-didata e através das referências desenvolveu sua técnica. Apenas com os livros disponíveis na época (e ele ressalta que hoje a internet abre infinitas possibilidades para quem deseja apender), sua principal motivação foi entender através daquelas referências que um dia alguém já tinha trilhado uma jornada semelhante à sua: vieram da periferia e construíram sua própria arte. A diferença é que Kobra conseguiu se manter longe das drogas.


Extremamente exigente e criterioso com o seu próprio trabalho, as referências, no entanto, em dado momento começaram a limitar suas possibilidades. Kobra queria criar sua própria forma de arte, sua marca pessoal, extrapolar as barreiras da criatividade. E aos poucos começou a dar forma à sua própria linguagem.

O mundo é sua maior fonte de pesquisa.

Hoje as formas e cores são sua assinatura registrada e tornam qualquer um de seus painéis facilmente reconhecidos.



Materialize as ideias e tenha uma estratégia


Mas para quem pensa que a jornada é simples, ledo engano. Apesar de parecer tão fácil praticar o muralismo, a burocracia e as polêmicas por trás dessa forma de arte ainda são um grande desgaste para o artista. Conseguir autorizações e mostrar suas intenções por trás de cada representação são o maior desafio para viabilizar cada um dos painéis idealizados por Kobra.

Encontre uma causa, algo em que você acredite e pelo qual você vive.

A obra Anne Frank, por exemplo, não era o pedido inicial para a cidade de Amsterdã. A cidade desejava representar um destaque local que Kobra nem mesmo conhecia. Mas para o artista, a escolha em trabalhar com obras que representassem memórias, etnias e grandes representantes da paz era maior do que apenas a execução de um trabalho. Assim, para conseguir transformar a ideia de Anne Frank, grande símbolo de Amsterdã durante o holocausto, em realidade foi preciso lidar com um árduo processo e responder mais de vinte perguntas da Casa Anne Frank, prefeitura e cidadãos de Amsterdã. Só depois de conseguir provar suas intenções, o projeto teve início e se concretizou, marcando hoje um dos símbolos turísticos da cidade.

Todo trabalho tem um desafio, mas também tem uma recompensa

Outro grande desafio para o muralista foi transformar em realidade o seu grande sonho de pintar na cidade de Nova Iorque. O projeto "Cores da Liberdade", uma série de murais com mensagens de impacto que resumem a essência de sua vocação em traduzir paz, etnias e memórias por meio das cores, encontrou uma série de desafios para ser concretizado. E dos sete meses de execução, a maior parte do tempo foi focado em driblar as burocracias e permissões necessárias (tudo com apoio de um intérprete para que o seu desconhecimento em inglês não fosse mais uma barreira). O resultado, contudo, também foi exponencial. Kobra recebeu o prêmio New Yorker e ganhou uma exposição própria em Miami, onde expôs 30 obras das quais 27 foram vendidas durante o lançamento do evento.


E para ele, tudo isso tem a ver com estratégia. Nenhum projeto se torna realidade se você não traçar uma estratégia para chegar lá.

Materialize as ideias. Ideias viram projetos quando vão para o papel.

Kobra afirma que a base do seu trabalho tem conexão com sonhos e como ele pode materializar este sonho. "Cores da liberdade foi idealizado há anos. Mas eu não tinha muro e nem recursos em NY. Peguei a ideia, coloquei no papel, estudei como poderia ser feito e bisquei conexões", explica.


Para ele, ser uma artista e representar um trabalho global é impossível sem entender que é preciso administrar também outras esferas desse desafio. Não se trata apenas de pintar o painel, mas criar toda a mecânica necessária e se organizar para que aquilo aconteça.

O que eu não domino, eu busco conexões....


Crie conexões


Como alguém já pintou em 30 países e ainda não fala inglês? Conexões. Essa é a resposta. A barreira mais intransponível da comunicação não impediu Kobra de buscar seus sonhos e objetivos. Desde cedo o artista entendeu que buscar parcerias para aquilo que não era sua especialidade ou conhecimento é o melhor caminho para transformar a realidade (antes todos entendessem isso!).

Faça conexões. Não se faz nada sozinho.

Não apenas para coisas básicas como o idioma ou as melhores práticas de investimento para seus negócios, mas também para encontrar caminhos e pessoas que viabilizassem suas obras, Kobra sempre valorizou as conexões como um canal para fazer acontecer.

Mostre o seu projeto. Existem pessoas que estão procurando o que você tem.

A fórmula não apenas funciona para qualquer um como tende a dar resultados muito mais significativos e rápidos do que para aqueles que desejam seguir sozinhos.



Siga sua vocação


Quando pensa sobre criatividade, Kobra afirma que não há como diferir seu processo criativo da vida pessoal. Para ele ir a um museu é sinônimo de diversão. A sinergia entre o seu trabalho, criar e viver é única e indissociável.


Mas trazer o conceito de economia criativa para a prática, no entanto, é compreender que o caminho é valorizar sua vocação. "Não se trata de seguir o caminho da arte porque é mais fácil ou porque todo mundo fala pra fazer isso. Deve ser sua vocação, parte da sua essência, algo pelo qual você vive."


Além disso, não significa não ter que fazer renúncias. Nada vem fácil. Sacrifícios fazem parte do processo, mas o mais importante é acreditar em você e se dedicar profundamente. E, se possível, tentar retornar para a sociedade algo de bom através do seu trabalho.


Foi assim que Kobra trouxe seus sonhos para a realidade e transformou ilegalidade em arte. E agora a minha cidade também tem uma obra exclusiva criada por meio de suas cores e formas. Itu ganhou um painel do Kobra em uma pista de skate =)


A mim particularmente, há outro valor incrível na obra de Kobra: ele faz arte para o povo. Suas obras são compartilhadas com o mundo e não estão fechadas em museus que cobram ingressos para serem apreciadas. Estão em todo o mundo e são para todo mundo...

Siga sua vocação, acredite em você e se esforce.

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© Letícia Spinardi

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