Está na hora de colocar a política de volta à mesa

Dizem que futebol, política e religião não se discute. Se você quer sentar à mesa com amigos, conhecidos ou mesmo estranhos em paz e harmonia, esses assuntos nunca devem ser pauta. Eu mesma sempre fui adepta dessa filosofia, nunca gostei de discutir esses temas (a maioria das vezes em que tentei, deu briga) e aconselhava todos que a fazer o mesmo.


Mas já parou para refletir que talvez seja por isso que tenhamos chegado ao ponto em que estamos?


A greve dos caminhoneiros vem despertando inúmeras reflexões a respeito do momento político que o nosso país vive. Há cinco anos um movimento importante foi iniciado com milhares de brasileiros indo às ruas para pedir o fim da corrupção, que já nos acompanha fielmente há tantos séculos. 


Eles estão corretos? Sim, sem sombra de dúvida. Talvez eles tenham sido a única camada realmente corajosa de parar todo um país, mesmo ciente dos prejuízos, para lutar por algo que todos desejamos: preços menos abusivos, o que é nosso por direito.


A questão é que apenas a redução do preço dos combustíveis não resolve o nosso problema. O centro de tudo vai além disso e está relacionado à formação de preço do combustível.


O Arthur explica isso de um jeito bem simples (e gente, por favor, isso não é apologia ao MBL, ao Arthur ou seja lá quem for que tivesse gravado esse vídeo. O foco aqui é a explicação. Foco na explicação da composição de preço, por favor!):



Se você ainda não entendeu, a própria Petrobrás explica em seu site a composição de preços ao consumidor:




Ou seja: 45% só de impostos. Quase METADE dos custos são impostos.

Aí eu pergunto: quantas pessoas no país realmente entendem isso?

Enquanto controlada em parte pela União, a Petrobrás trouxe uma herança de prejuízos da qual ainda se recupera por não ter investido suficiente para explorar fontes de combustível em nosso país, o que a obrigou durante anos a importar combustível para atender a demanda nacional. A conta, paga em dólares, gera um impacto cambial que é pago por cada um de nós nos preços do combustível.


E há, do outro lado, os impostos. Ah, mas pelo acordo suspenderam o CIDE. Ok, mas o que é o CIDE frente a 29% de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadoras e Serviços)? Você já tentou entender a lógica do ICMS? E por que ele é tão alto? Só isso já merece um outro post completo sobre o assunto.


Sem contar que a diferença cambial poderia não ser tão grande se nossa economia não fosse tão caótica e o real tão desvalorizado (o que piora em climas de incertezas e inseguranças como o que vivenciamos nessa semana).


Tudo isso gera uma carga de impostos bastante alta para o contribuinte, sejam eles empresas ou cada um de nós, cidadãos. Sim, porque as empresas já custeiam uma alta camada de impostos, que depois ainda são repassados pra nós não apenas naquilo que é cobrado pelo governo (os impostos discriminados na NF), mas também no preço do produto, porque a empresa precisa reajustar seu valor para garantir seu giro corporativo. Ou seja, pagamos duas vezes o preço da má administração pública. E antes de criticar os empresários, lembre-se que eles também pagam a conta duas vezes (às vezes até três, pois há ainda o IRPF).


Agora quantos desses milhares de brasileiros que ainda acreditam que a redução do combustível na bomba, o bolsa família ou programas do tipo resolvem todos os nossos problemas estão cientes disso? Quantos deles sabem que pagam um preço muito maior por esses "benefícios" do que deveriam?

Então será que não está na hora de deixar o mi-mi-mi de lado e colocar SIM a política em pauta na mesa? 

Por que você acha que a educação é um problema tão latente em nosso país? Não seria porque, talvez, se ignorando a real crise da formação de preços do combustível e não do valor em si seja mais fácil resolver o problema do jeito errado, criando outro, que vai levar ainda mais dinheiro para um governo repleto de privilégios e com poucas ações concretas pela população?

Investir em educação e conhecimento é, provavelmente, o maior risco que o governo poderia correr de derrubar sozinho toda a montanha de sujeira que ele cria diariamente. Dê conhecimento ao povo e veja o que realmente acontece.

O grande movimento que PRECISAMOS iniciar a partir dessa bela e corajosa atitude de nossos caminhoneiros - tantas vezes desprezados por nós, que sentamos à mesa ignorando como o alimento que nos sustenta chegou até lá - até mesmo como forma de honrar sua bravura, é a real conscientização de quem ainda não entendeu onde está o centro do problema


É fácil? Não. Provavelmente iniciar uma guerra seria muito mais simples do que mudar a mente de milhares de pessoas que viveram anos condicionadas à um pensamento enganoso, retrógrado e repleto de influências. Mas é só através do conhecimento que teremos a força de propagar a real mudança de que precisamos.


Seja abrindo os olhos de quem vai às urnas ou fazendo com que as pessoas passem a olhar com mais atenção para aquele campo repleto de números absurdos que está em cada NF que recebemos diariamente.


Já parou para fazer as contas e entender o quanto de impostos você paga na farmácia quando está doente e o quanto realmente é medicamento? Tudo isso para depois ainda correr o risco de precisar de um atendimento no SUS, lento e árduo, por uma qualidade muito inferior ao que você paga? 


Essa é a NF da compra que eu fiz ontem na farmácia. Total: R$ 74,65 (Deus abençoe os descontos dos convênios). Impostos Federais: R$10,99. Impostos Estaduais: R$13,97. Ou seja: R$74,65 - R$10,99 - R$ 13,97 = R$ 49,99. R$ 24,96 só de impostos, 33% da conta. 1/3 da conta são impostos!



Já parou para fazer o cálculo quase inocente de contabilizar durante um mês todas as linhas de impostos em suas compras e o que realmente era equivalente ao produto ou serviço comprado? Essa conta pode ser muito mais dolorosa do que você imagina.

Mas ela precisa e DEVE ser jogada na cara da sociedade, com toda dor e lágrimas que carregam. Só assim é possível abrir olhos que seguem colados pelo grude dos corruptos.


Como explicar para um trabalhador que 41% dos suados R$ 900,00 por mês que ele recebe vão para o governo?


Seja ontem ao ver o pronunciamento do Temer, ou hoje ao ver o ministro Eduardo Guardia falando que o repasse de tudo isso será novamente direcionado à nós, é nesse momento que a nossa verdadeira luta começa. O corte no Orçamento não vai ser direcionado aos privilégios políticos, mas sim ao nosso bolso, ao nosso sistema deficiente de saúde e educação e por aí vai.


Não dá para esperar mais, aguardar as eleições rezando por mudanças ou que um milagre aconteça. É preciso começar a abrir os nossos olhos e os olhos de quem está ao nosso redor para onde o problema realmente está.


Não compartilhe posts falando sobre a Dilma, o Temer, o Aécio, Dória ou seja qual for o seu partido ou causa.

A NOSSA CAUSA nesse momento, mais do que nunca, deve ser o NOSSO PAÍS. Compartilhe CONHECIMENTO.

Compartilhe o que há por trás de cada problema. Compartilhe posts que explicam porque políticos recebem tantos privilégios enquanto um aposentado luta para pagar seus remédios com uma aposentadoria quase inacreditável de R$954,00 depois de trabalhar por mais de 35 anos, enquanto um deputado pode se aposentar com dois anos de mandato, uma reserva milionária e aposentadoria de R$ 8,6 mil. Por que esse político é mais importante ou valioso do que um caminhoneiro, um pedreiro, um contador ou um professor? Por que não podemos ter todos os mesmos benefícios, proporcionalmente equivalentes? 


Compartilhe mais POR QUEs, compartilhe discussões saudáveis. Deixe de lado, apenas por um dia, o conformismo e o fanatismo partidário e vista a camisa de ser realmente um Brasileiro!

Compartilhe posts sobre economia, sobre composição de preços, sobre saúde, sobre educação. Não discuta com seu vizinho sobre o voto errado dele ou a simpatia pelo candidato que você não gosta. Discuta com ele sobre o dever de observar a NF da padaria e ver quanto custou o pão e quanto ele pagou em impostos por esse mesmo pão. 


Todos os privilégios que beneficiam nossos políticos criaram, ao longo de anos, uma conta que nos custa cada dia mais caro. E ao invés de mudar os privilégios, cada vez que um novo problema surge, eles aumentam os impostos e repassam, mais uma vez, a conta para cada um de nós.


A matemática é simples: imagine que você compra todo mês na venda do seu Zé.Você tem conta e paga por mês. Só que na semana passada o fornecedor dele aumentou o preço do ovo porque teve um probleminha pontual com o caminhão e precisava pagar a conta. O seu Zé não quis ficar com essa conta, então ele aumentou o preço do bolo e colocou a diferença na sua conta. Mas o lucro dele permaneceu o mesmo, porque na composição de preço dele há margem para situações assim, mas aí o lucro dele cai um pouquinho para fazer uso dessa margem. Só que o seu Zé sabe que se repassar pra você, você nem vai notar. É só culpar o aumento do ovo e pronto..... Pois então, é isso que o governo faz com você todos os dias!


Temos um país riquíssimo, com recursos que qualquer outro país do mundo daria tudo para ter. Temos um clima agradável, não sofremos com tornados, desastres naturais, guerras. E jogamos todo esse valor no lixo cada vez que passamos mais tempo discutindo preferência partidária ao invés dos reais problemas e as soluções para todos eles.

Então sim. Está na hora de colocarmos a política de volta à mesa. Não com violência, calor ou armas. Nem com fanatismos ou carregada de influências. Mas com transparência, conhecimento, consciência e com mente aberta para entender que é preciso tirar a sujeira debaixo do tapete. E não comprar mais tapetes.

Obrigada caminhoneiros, vocês deram o melhor exemplo que poderiam e iniciaram uma revolução importante. Agora é a nossa vez de continuar essa força do lado de cá, não aceitando que a conta seja repassada para nós. Não aceitando engolir mais um monte de blá-blá-blá político a cada novo problema. Político tem que trabalha 8 horas por dia, de segunda a sexta, como qualquer um. Tem que estar no Planalto quando tem crise, sim, não importa se é madrugada, sábado ou domingo. Se um médico está disponível para salvar vidas quando há uma emergência, então é hora de vocês, políticos, terem disponibilidade para salvar o país. E é nosso papel cobrar isso TODOS OS DIAS.


Jogar a solução para a intervenção militar não é resolver o problema. Declamar uma guerra não é resolver o problema. Discutir partidos não é resolver o problema. Bater em panelas também não vai resolver o problema. Espalhar CONHECIMENTO é começar a resolver o problema. A jornada é longa e será muito dolorosa. Mas ninguém nunca disse que o caminho para a vitória um dia seria fácil.

© Letícia Spinardi

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