Final Masterchef: como William e Rafael provaram que concorrência pode ser agressiva, construtiva e


Desde que o homem é homem, lá na bagunça do dia fatídico em que Adão e Eva comeram a maçã, existe um negocinho chamado "concorrência". Esse pequeno notável cresceu e, ao longo da história da humanidade ganhou contornos maiores. Bem maiores... Hoje esses contornos podem até mesmo definir o sucesso ou fracasso de uma empresa inteira.


Mas aí, no meio do caminho, apareceu um pequeno desvio nesse contorno. Enquanto a essência da concorrência é de que você tem duas ou mais pontas apresentando a mesma oferta, buscando elevar o nível de qualidade e entrega para se diferenciar e definir o melhor, um feiticeiro poluiu tudo falando que o negócio era se mostrar melhor que o outro, mesmo que na real não fosse. E aí entrou no contorno alguns itens como poder, capital, influência e outras coisitas mais...


Foi assim que viramos reféns de estatais, cias telefônicas, bancos, convênios e tantos outros segmentos e fornecedores do mercado.

Mas para todo vilão, sempre existe um herói, ou um grupo de vingadores. Ou você acha que o Nubank e Netflix surgiram só porque tinha uma galera com tempo livre em casa?

A questão é que o grande problema disso tudo está no fato que essa história se reflete em todas as esferas, inclusive no nosso dia a dia. Desde a escola, em que o colega tenta se sobressair puxando o saco da professora ao invés de estudar mais, ou com aquele colega de trabalho que prefere roubar sua ideia do que se unir a você e criar algo ainda melhor juntos. É um ciclo venenoso infinito. E triste, muito triste.


Mas pode ser diferente. E pode ser lindo de se ver! E foi isso que Rafael e William provaram ontem na final da nona temporada de Masterchef profissionais...


Sou fã confessa e viciada em Masterchef Brasil. Quem me conhece já sabe que a noite de terça não é o melhor dia para marcar algo.


Eu me encanto com as cores, aromas e sabores e com o modo de como algumas pessoas transformam alimentos tão puros e simples em arte. Vi tudo que há para ver em Chefs Table e amei minha experiência em uma startup do universo da alimentação. Acho que a comida e capaz de nos conectar pela base mais simples da subsistência.


Mas mesmo neste meio que deveria ser sempre tão belo, já que o alimento é capaz de garantir a subsistência do corpo e também da alma, existe concorrência.


E seguindo a lógica natural da história da concorrência, as finais de Masterchef não fogem à regra. Todas as finais de temporadas são, em geral, marcadas por embates cheios de ódio e inimizade. Raramente os finalistas eram amigos tentando provar quem era o melhor. E para o padrão as edições profissionais são ainda mais tensas que as de amadores. Até que ontem, depois de muito tempo, vimos algo diferente acontecer...

O que vimos dessa vez foi aquilo que todos gostaríamos de enfrentar no mercado: uma concorrência respeitosa, construtiva e saudável sem perder a agressividade natural que nos faz querer ser melhores do jeito certo.

Rafael e William, os finalistas da vez, queriam se enfrentar não por se odiarem, mas por admirarem o trabalho um do outro e desejarem se provar melhor. Ah, como o mundo seria tão melhor com concorrências assim, entregando qualidade e não vulgaridade.

Foi uma batalha muito emocionante!


De um lado Rafael buscando desafiar seu instinto natural da culinária francesa desbravando o valor dos ingredientes brasileiros, mas sem fugir à sua natureza de formação nos clássicos. Do outro, William encontrando a oportunidade única de mostrar sua loucura e ousadia na cozinha, já que fora de lá, ao contrário de boa parte dos participantes que tem seu próprio restaurante, ele ainda busca construir sua independência empreendedora e criativa.


Que delícia assistir esse episódio. E quantas, quantas lições bonitas!



Como eles chegaram lá


Para entender essa final, é preciso antes fazer um breve retrospecto da temporada. A nona edição do programa focada em profissionais trouxe ao palco talentos jovens e muitos já com uma carreira consolidada no mercado. Não raro as descrições eram “dona de um restaurante no Rio de Janeiro”, “proprietário de dois restaurantes na França” e por aí vai... Então não era uma turma para brincadeira. Claro que lá estavam os chatos, os legais, os donos da verdade, os egoístas, os que se davam bem com todos. Tinha todo tipo de perfil. E tinha um favorito claro: André. O samurai das facas, de acordo com o apelido carinhoso dado a ele por Eric Jaquin, era claramente um dos mais fortes candidatos à grande final. Adorado por todos os participantes, zero intrigas, paz total e muito talentoso. Por isso sua saída foi tão sentida por quem ficou, arrancou lágrimas aos prantos de Paola Carosella e emocionou quem estava em frente à tv. Mas a vida é assim mesmo... Nem todos os dias a gente ganha.


E, um a um, grandes talentos foram para casa em uma temporada de altíssimo nível. Até que restaram Rafael, Heaven e William em uma semifinal de arrepiar. Tudo indicava que William talvez não fosse levar para casa a chance do troféu. Mas sua vontade de enfrentar Rafael foi maior e ele garantiu sua passagem para a final mais bela de todas as temporadas e edições do Masterchef Brasil.


Aí o que poderia se tornar um duelo cheio de farpas tamanha a vontade de se enfrentarem, deu lugar à um show de profissionalismo, respeito e parceria. O tempo todos eles buscavam seu melhor sem tripudiar, sem prejudicar, sem desejar o mal do outro. O objetivo era construir o seu melhor. E ponto. De cara o nível de entrega surpreendeu os jurados. As entradas já mostravam a que os competidores vieram.


A autenticidade de William é de fazer inveja aos nomes mais notórios da culinária. Depois de todo um menu ousado, ele fechou seu cardápio com uma sobremesa que poderia tirá-lo do páreo sem medo de ser feliz porque naquele momento, mais do que 200 mil reais ou um troféu, ele estava construindo seu futuro na história da gastronomia. Essa lógica ficou visível quando em todos os últimos programas que entregaram um William inseguro e perdido trouxeram para o holofote da final um chef apaixonado, seguro e confiante como nunca. Seu orgulho e alegria ao receber cada elogio era tão evidente e cativante que do outro lado da tela era quase impossível não se emocionar junto com ele. Enquanto isso, do outro lado, foi o sempre confiante e dono de si Rafael quem se rendeu ao medo em expressões assustadas como nunca tinha demonstrado antes. A incerteza, pela primeira vez, parecia dominar a situação. Rafael não é do tipo que entrega empatia. Ele é teimoso, gosta de vencer, não gosta de estar por baixo. E de repente tremia tanto que não conseguia carregar seu cesto de produtos no mercado. Vê-lo tão inseguro e arredio mostrou como todos somos humanos nas situações mais extremas. Não há certo ou errado, melhor ou pior. Era o Rafael travando uma luta interior para provar a si mesmo que ele podia mais.


Quem ganhou nessa concorrência? Todo mundo. Os competidores conseguiram superar a si mesmos entregando pratos tão incríveis que os jurados mal conseguiram encontrar motivos para qualquer sombra de críticas (e olha que estamos falando de um trio que adora detonar os participantes). Fogaça, Paola e Jaquin tiveram a oportunidade de desfrutar da mais bela final de todas no programa. Os participantes eliminados que assistiam ao embate tiveram uma lição de como o respeito na cozinha pode ser engrandecedor para todos. E o público ganhou um espetáculo sobre concorrência saudável para o mundo.


Por fim, na luta entre a ousadia e o clássico, o clássico venceu. Neste momento é melhor deixamos de lado a discussão sobre se o resultado foi justo ou não. Eu gostei? Não! Minha torcida era pelo William. Mas não cabe aqui essa discussão. O foco é o embate admirável que os dois profissionais nos presentearam nesta terça. Foi impactante, foi lindo, foi honesto e violentamente pacífico.


Se há uma frase que pode definir essa temporada incrível e cheia de lições, ela é de um dos convidados dessa edição - e renomado representante do nosso país na gastronomia mundial:

“O difícil não é fazer o que ninguém faz. O difícil é fazer o que todo mundo faz, melhor”. (Alex Atala)

© Letícia Spinardi

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