O que Copa, times e craques podem nos ensinar sobre trabalho em equipe


As quedas de Neymar vão muito além de efeitos Matrix para cavar pênaltis ou oportunidades de atenção. Em campo, no mundo corporativo ou na vida, apesar de todo time ter um craque, não existe um craque sem um time...


A Copa do Mundo começou há pouco mais de uma semana e depois do embaraçoso 7 x 1 da última edição, cada brasileiro vive respira com ajuda de aparelhos quando nosso time vai a campo, desacreditando de nossa continuidade no campeonato, mas sempre com um fundo de esperança de que esse ano as coisas possam ser diferentes. Vibramos com a desgraça de Messi, nos tornamos Islandeses de coração e agora apenas desejamos não voltar para casa no mesmo vôo de los Hermanos.


Mas a despeito do cenário futebolístico, político e econômico que estamos vivendo – não por acaso, todos em crise – há muito mais a aprender com as lições que vemos em campo durante o maior campeonato esportivo do mundo. E cada uma dessas lições cabem direitinho em nossa vivência no mundo corporativo (e ouso dizer, na vida).


Vamos aos fatos: Neymar é a cara da Seleção Brasileira atual. Surgiu como o grande rosto da Seleção tão logo entrou no time em 2010. Seguindo a mesma fórmula de craques como Pelé, Garrincha, Romário e Ronaldo, por exemplo, ele mostrou a que veio com talento natural pelo “futebol-arte”. Depois de escrever o começo de sua história e despontar para a fama no Santos, alcançou o posto de destaque no cenário internacional do futebol, conquistando posições na Seleção Brasileira e em times como Barcelona e Paris Saint-Germain. Mas junto com seu crescimento, veio a maldição dos craques...


Assim como a lenda da maldição do Oscar, os nossos craques do futebol sofrem da chamada “maldição dos craques brasileiros”. Pelo histórico comum à boa parte deles (e, diga-se de passagem, essa lenda se aplica aos craques das novas gerações, após os anos 90), o sucesso vem acompanhado de lesões, polêmicas e várias confusões (em campo e fora dele).


O que eles têm em comum? A queda no abismo do estrelismo. Depois de conquistar um posto merecido por seu talento, eles parecem reduzir o esforço que os levou até lá e mudar o foco do objetivo final (fazer o time ganhar) para si mesmo (fazer seu nome brilhar). Mas eles se esquecem da lei máxima em qualquer trabalho de equipe, desportivo ou não:

Todo time tem um craque, mas não existe um craque sem um time.

Quem nunca viu isso no mundo corporativo? Um grande talento desponta, alcança um cargo merecido no alto escalão e, de repente, se transforma no vilão que busca os louros enquanto sua equipe trabalha horas a fio na busca por resultados.


No jogo de hoje, por exemplo, isso ficou muito claro. Depois de não conseguir alcançar o brilho desejado com a crise de paralisia coletiva que tomou conta do campo no jogo Brasil x Alemanha de 2014, a esperança de Neymar (e do Brasil) era brilhar em 2018. Mas por enquanto, em apenas dois jogos, o que ele conseguiu foi ganhar um novo apelido: Neymar Cai Cai. Chegou jogador perto, ele cai. Bateu um vento, ele cai. Deu frio, ele cai. Ficou com calor, ele cai. Tá sozinho na boca do gol, cai. Seria cômico se não fosse trágico...


E enquanto na partida contra Costa Rica o “craque” estava ocupado demais encenando e caindo em contínua harmonia, com destaque para a técnica da “queda-matrix-para-cavar-penalti” (o que deu margem para a Costa Rica aprender rapidinho a lição e embalar uma bela sessão de quedas), o “time” trabalhava. Trabalhava dobrado para apaziguar juiz e adversários das molecagens do moço, para chegar o maior número possível de vezes perto do gol e para jogar tantas vezes quanto possível a bola no pé do craque. Tudo que ele precisava fazer era mandar por gol. E quando ele não estava caindo na porta do gol, ele tentou. E falhou, algumas vezes. Falta de talento? Eu diria que era mais falta de foco. Ele ainda estava mais preocupado em fazer o gol para brilhar do que fazer o time ganhar.


Quando você está comprometido em ver seu time ganhar, sua atuação muda. Você dá o sangue, se desdobra e sabe que precisa aproveitar aquela chance única do jeito certo, sem margem para erro ou bolas fora. Exatamente como mostrou Felipe Coutinho, em seu segundo e tão lindo quanto o primeiro gol. Com uma porção de oportunidades e pés próximos da rede, foi ele quem surgiu em alta velocidade sem aviso e sem medir esforços para meter a bola para dentro, sem dar tempo do goleiro evitar um belo frango. Ou seja, enquanto Neymar encenava, ele trabalhava.


Isso gerou um efeito curioso em nosso craque. Afinal, subitamente depois de 50 minutos de quedas, bolas fora, reclamações e xingamentos vistos na leitura labial por qualquer pessoa que fale português, ele conseguiu não apenas fazer um gol, mas ainda fez graça driblando outros jogadores com jogadas que nos fazem recordar o Neymar do talento, e não o Neymar do brilho. De repente a dor que surgiu depois do último jogo e ameaçou essa partida sumiu, o desequilíbrio sumiu. O time fez o seu papel, colocou novamente a boal no pé dele e o tão esperado gol saiu. Mas saiu porque ele realmente queria fazer gol ou porque temia não ser lembrado da mesma forma que Coutinho será depois dessas duas partidas?


Nesse momento vimos a regra da motivação que vem da concorrência interna, aquela saudável, em que todos querem melhorar e se destacar. Mas o problema aqui é que ele continua atuando com foco em seu próprio brilho e não em fazer o time ganhar o jogo. E histórias assim raramente terminam bem.


Imagine se todo o time fosse formado por Neymars. Seria praticamente um bando de gelatinas caindo a todo momento e nenhum gol feito, porque com tantas quedas a bola nunca chegaria à zona de ataque. Essa disparidade entre ter um time trabalhando em conjunto pelo bem comum (a vitória) e um craque desviando seu talento para um interesse próprio (seu brilho), gera um desequilíbrio profundo capaz de resultar em cenários como aquele 7 x 1. O time acha que sem ele não pode ganhar e perde a força por desacreditar em sua própria capacidade coletiva.


Mas no jogo de hoje vimos uma mudança começar a acontecer. As quedas estavam lá, mas o time não parou e não deu sequência ao mi-mi-mi do joão-bobo-chorão-mimado. Foi lá e mostrou a que veio. E que há outros talentos capazes de brilhar tanto quanto ele. Seja Coutinho, Gabriel Jesus ou qualquer um que deu sua parte de contribuição para evitar uma bola inimiga em Allysson ou incentivar um contra-ataque em busca da vitória. E isso só acontece quando existe harmonia e trabalho em equipe. É o começo da uma longa fase de recuperação do próprio time sobre sua segurança e autoconfiança em busca de mais. Em busca de retomar uma posição da qual sempre nos orgulhamos: a melhor seleção do mundo em futebol.


E há uma peça fundamental nessa estratégia: Titi. Cabe ao técnico transformar o cenário de uma seleção desacreditada em uma nova geração de talentos que quer ser lembrada por gerações. Ele pegou uma verdadeira bomba relógio nas mãos, que pode destruir ou glorificar sua carreira para sempre. E só será possível reverter esse quadro usando a fórmula essencial de qualquer líder: time que ganha é time que joga junto. E para isso ele ainda vai precisar colocar bastante o “craque” do momento de castigo.


Se não existisse esse time todo por trás de cada jogo, qual a chance de Neymar – o “craque” – brilhar? Como ele poderia fazer isso sozinho? Não estou dizendo que ele não tenha dores de verdade ou que não mereça o brilho por seu talento. Mas o que falta à Neymar é o mesmo que falta a todos que acreditam que podem ser os melhores do mundo sozinhos: reciprocidade.

Só existe um craque quando há pessoas para reconhecer, valorizar, estimular e apoiar seu talento. Seja seu time, seu técnico ou seu público. Então o mínimo que um craque pode fazer é retornar essa energia para quem o coloca nessa posição de craque.

Veja o caso da Islândia. O país tem o tamanho de uma cidade média no Brasil, nunca foi destaque no futebol e vem traçando uma história ascendente belíssima no campeonato de 2018. Fizeram Messi, o indestrutível, comer poeira com a força Argentina a seu lado e mostraram o que é um verdadeiro trabalho em equipe. Porque mesmo que esse time não tenha um grande craque, sozinho ele pode sim derrubar um craque do adversário


Se transportarmos essa reflexão para uma dezena de casos reais, seja no trabalho, na vida ou em um projeto qualquer, a lógica é a mesma. Nada é construído com solidez quando se tenta fazer algo sozinho. Você até consegue alcançar conquistas importantes, mas falta apoio, falta backup, falta aquele movimento inesperado do Coutinho para apoiar a vitória. Falta o calor do público vibrando e a energia da torcida que te leva adiante em busca de mais.


Então mesmo que você trabalhe sozinho, pense nisso. Pense em quantas pessoas o levaram até onde está hoje, mesmo que indiretamente. Quantos jogadores há no seu time invisível para que você possa colecionar cada uma de suas vitórias. E valorize o trabalho em equipe.

Jogue junto, dê sua alma até o fim, com dor ou sem dor. É só assim que se constrói um verdadeiro craque: com grandes equipes.

© Letícia Spinardi

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