Uma reflexão sobre oportunidades


Se você quer uma dica de filme para o final de semana, veja "A gangue está em campo" e depois dê a você mesmo um tempo para refletir sobre quantas oportunidades a vida coloca em nossas mãos e quantas realmente agarramos pra valer...


O cinema está repleto de filmes que falam sobre dar uma segunda chance. Dentre as mais diversas opções, assistimos a alguns poucos com a merecida atenção e interesse. Mas, um deles chamou a minha atenção: “A Gangue Está em Campo”.


Baseado em fatos reais, o longa conta a história do treinador Sean Porter, em sua difícil e corajosa empreitada para devolver à sociedade alguns dos jovens delinquentes que passaram pelo reformatório onde trabalha. Eles chegaram lá depois de cometerem assassinatos, roubos e outros crimes.


Cansado e frustrado em não ver qualquer retorno ou mudança pelos meios tradicionais do sistema criminal, Porter recorre ao futebol americano para tentar trazer um pouco de disciplina, responsabilidade e dignidade aos garotos. Desde o início, ele tem consciência de que a tarefa não seria nada fácil e mesmo nos momentos mais difíceis, ele não desiste.


A maioria dos detentos cresceu no mundo da violência e vivia sob orientação dela. Escolher entre seguir as suas regras ou questioná-las não era uma opção. Era sobrevivência. Mas, dentro de campo é Porter quem dita as regras.


Ao mesmo tempo em que muda a perspectiva de vida dos garotos, Porter enfrenta seus próprios dramas, como a relação mal resolvida com o pai e a morte de sua mãe. Além disso, vai contra o sistema governamental para levar seu time a campo. Ele se envolve com a trajetória de cada garoto e se mobiliza por eles, mas sem carregá-los no colo.


É praticamente impossível não vibrar com a equipe durante o campeonato e não se emocionar com a vitória conquistada a duras penas, digna de verdadeiros campeões. Vai além dos treinos físicos. Desnuda a alma e o psicológico de cada um dos jogadores no jogo da vida.


Por que então este filme me convenceu da mensagem que tenta transmitir? Bom, toda lição de moral tem seu lado de conto de fadas irremediável. Mas, o que “A Gangue Está em Campo” foca é justamente a ideia de oferecer outra opção a quem nunca teve. Para aqueles garotos que estão na prisão, a vida foi sempre dura. Eles cresceram nos piores becos e ruelas, vítimas da violência e aliados a ela para sobreviver ao próprio destino, entre armas de fogo, drogas e facas. A entrada do treinador em cena mostra aos jovens que há outro caminho, uma nova alternativa e que eles podem, sim, fazer uma escolha.


Nunca fui fã do ator Dwayne “The Rock” Johnson, mas me tornei. Usando sua extensa bagagem como também jogador de futebol americano no passado (antes de ganhar fama como wrestler), ele consegue dar vida a Sean Porter com perfeição. Emociona o público com os dilemas de um homem frustrado, que enfrenta os seus próprios medos. A sua luta é tocante e sua coragem em não desistir é uma lição para muita gente. Ele mexe com os garotos, mas também se sente transformado pela convivência com eles. “A Gangue Está em Campo” passa a mensagem de que um mergulho ao mundo da subconsciência não vai matar ninguém. Já o descaso, esse sim, pode fazer muitos estragos. 


Se o sistema público transportasse histórias como essa para a realidade, poderíamos ter um pequeno vislumbre de mudança. Sabemos, é claro, que não é nada fácil mudar o sistema penitenciário na esperança de que um programa possa dar resultados expressivos, mas se um em cada dez garotos for recuperado, então poderemos ter uma sociedade melhor amanhã. É preciso sim investir em educação para que não cheguem ao sistema, mas é tão necessário quanto reverter o quadro dos que já chegaram lá, para que ao saírem não sejam engolidos novamente pela violência, levando consigo aqueles que a educação tanto tentou salvar.


O verdadeiro programa de Sean Porter, em que se baseou o filme, é tema do documentário premiado como melhor da TV em 1993: Camp Kilpatrick Mustangs, de Lee Stanley (produtor de “A Gangue Está em Campo”). Durante os créditos finais do longa, alguns trechos do documentário são exibidos e deixam clara a veracidade de cada cena transportada para a ficção. Em alguns casos, até mesmo a semelhança física dos atores com os verdadeiros garotos é imediata.


Seguindo a mesma linha de “Mentes Perigosas”, com Michele Pfeifer e “Escritores da Liberdade”, com Hilary Swank, tão bons quanto o título em questão, a diferença de “A Gangue está em Campo” é que ele trata o problema sob a posição de quem já foi parar no fundo do poço.


A questão é: e nós? Muitas vezes estamos em situações muito mais privilegiadas e distantes das que são vivenciadas por aqueles negligenciados pela sociedade, por seus pais ou pelo governo. E mesmo assim temos uma série de oportunidades na mão que deixamos escapar. Simplesmente porque estamos habituadas a conseguir algo melhor depois. Mas e se essa fosse a sua única chance? Sua última chance? O que você faria?


Pense sobre isso... ;)

© Letícia Spinardi

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